De onde surgiu este seu interesse nas causas LGBT’s?
Primeiro foi com uma questão pessoal. Dos 14 aos 19 anos de idade tive muitos problemas de autoaceitação, e com a família, a igreja, na escola. Consegui começar a superar isso quando vim para Curitiba com 19 anos e participei de vários grupos de discussão sobre sexualidade na UFPR. Depois de formado, tive a oportunidade de morar 4 anos na Europa. Lá, participei de grupos LGBT, paradas e do encontro mundial da ILGA realizado em Viena em 1989. Quando voltei para o Brasil não tive dúvida em formar uma organização não governamental em Curitiba, que se chama Grupo Dignidade. O interesse que me motivou nisso foi contribuir para mudanças sociais para que outras pessoas LGBT não tivessem que passar pelo que eu passei na minha adolescência.
O Sr. já esteve em Maringá, se já esteve qual suas lembranças da cidade?
Já estive várias vezes em Maringá para dar palestras como sexólogo. Gosto muito da cidade, acho uma cidade muito arborizada. Também gosto da catedral, acho super linda, e a amabilidade das pessoas.
Qual o inimigo numero 1 dos LGBT’s brasileiros?
Hoje os religiosos fundamentalistas são os principais adversários da população LGBT, especificamente no Senado Federal, na pessoa do senador Magno Malta.
Qual é o candidato ideal para a presidência do Brasil com maior disposição para as causas LGBT’s?
Felizmente no Brasil na última eleição presidencial todos(as) os(as) candidatos(as) – Lula, Geraldo Alkmin, Heloisa Helena e Cristovam Buarque – assinaram o compromisso que apoiariam a causa LGBT. Vejo hoje que os(as) pré-candidatos(as) Dilma Rousseff e José Serra são pessoas muito favoráveis aos direitos humanos. Claro, com todo o trabalho que foi feito de promoção da cidadania de LGBT no governo Lula, Dilma seria a candidata mais indicada para assumir a presidência e dar continuidade a esse trabalho.
Toni Reis se candidataria a algum cargo político, qual?
Eu já tive a experiência de ser candidato a vereador duas vezes em Curitiba. A primeira vez fiquei como suplente. Gosto muito da política partidária. Não está nos meus planos me candidatar novamente e não estou afiliado a nenhum partido atualmente. Mas nunca se deve falar “nunca”. Eu gosto da política, e quem sabe no futuro? Mas por enquanto meus planos atuais são de terminar meu doutorado e adotar e criar dois filhos.
O que o Sr. acha da mídia brasileira em relação aos LGBT’s?
A mídia em geral tem dado um tratamento muito digno à comunidade LGBT, com algumas exceções. O que tem prejudicado a nossa imagem, a nossa cidadania, são os programas humorísticos que projetam imagens estereotipadas a nosso respeito, reforçando o preconceito.
Em relação às novelas, qual retratou melhor o lado LGBT no Brasil?
Em geral as novelas que tenho acompanhado têm retratado as pessoas LGBT de uma forma muito digna nos últimos cinco anos. Antes disso, houve algumas novelas que provocaram protestos da nossa parte por causa de inferências negativas, como por exemplo a novela em que o casal de lésbicas foi morto, e algumas novelas que reforçam estereótipos.
O que o Sr. espera do movimento LGBT em Maringá?
Primeiro, como paranaense espero que continuem se organizando, e que logo tenhamos a primeira Parada LGBT em Maringá. Faço questão de ir à primeira e darei todo meu apoio político. Espero que seja formada uma organização não governamental LGBT forte, que tenhamos um centro de referência LGBT, com advogados, psicólogos e assistentes sociais para contribuir para a defesa e promoção dos direitos humanos de pessoas LGBT na região norte do nosso estado.
Qual a cidade mais homofóbica no Paraná que o Sr. já esteve?
A homofobia existe em todo o Brasil, em todo o mundo e em todas as cidades, mas é um atributo de algumas pessoas, e não das cidades em si. Contudo, vejo que algumas cidades nas regiões norte e nordeste do país têm uma tendência mais forte à homofobia devido ao machismo. No Paraná eu não saberia nominar uma cidade específica.
Os católicos e evangélicos ajudam a manter a homofobia no Brasil?
Os fundamentalistas, sim. Não podemos generalizar a respeito de todos os católicos e evangélicos, e com efeito tem muitos que são favoráveis à nossa causa. A Pesquisa Nacional Criminalização do Preconceito ou Discriminação contra Homossexuais, feita pelo Datasenado em 2008, mostra que 55% dos evangélicos são contra a homofobia e 75% dos católicos gostariam que a discriminação homofóbica fosse criminalizada. Por outro lado, os fundamentalistas, ou “literalistas” – aqueles que interpretam a Bíblia ao pé da letra – contribuem para a manutenção da homofobia. O que eu sempre falo é que leitura da Bíblia fora do contexto é pretexto para o preconceito.
Qual conselho o Sr. daria para alguém que quer se assumir homossexual?
Primeiro, acho que todas as pessoas devem assumir a meta de ser feliz. A finalidade principal da vida é ser feliz. Se precisa assumir ou não a homossexualidade, isso depende de cada um, mas o assumir-se, por mais que possa ser dolorido inicialmente, contribui para a realização pessoal e a felicidade. Quem for se assumir deve se informar bastante, estudar, para poder falar com segurança sobre o assunto. É importante procurar conversar muito com a família, explicar o que é a homossexualidade, como se sente, mostrar que não é uma escolha deliberada. Procurar ter um grupo de amigos que possam dar suporte para evitar o isolamento.
Qual foi o pior momento no trabalho do presidente da ABGLT?
Na vida temos muitas ameaças e acho que é triste quando você recebe cartas de fundamentalistas colocando inverdades ou calunias sobre nossa vida. Mas eu sempre prefiro os 99% de coisas boas que fizemos e que ajudamos a construir, como a I Conferência Nacional LGBT, os seis Seminários LGBT que fizemos no Congresso Nacional, a presença e a fala do Presidente Lula na I Conferência, enfim… são bons momentos. Hoje há mais de 300 grupos LGBT no país, mais de 150 paradas, e é isso que temos que valorizar.



