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A Homossexualidade e a Religião: É possível conciliar?

“Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mateus 11:28).

“Se Deus te chamou, você virá a Ele; e Ele, de modo nenhum te lançará fora” (João 6:37).

Sim, estas são as palavras de Jesus para você, que assim como eu, é gay e acredita em um Deus que é capaz de nos perdoar apesar de não nos sentirmos, muitas vezes, merecedores de seu amor.

A homossexualidade, ainda hoje, é vista como “abominação” pelas Igrejas conservadoras. Discursos gritados veementemente por cristãos fundamentalistas, acompanhados do famoso “Amém” insistem em ecoar dentro da casa de Deus, cujo objetivo deveria ser o de acolher todo e qualquer ser humano criado à sua imagem e semelhança. Contudo, fecham-se as portas para os homossexuais que, como tenho visto, não só em Maringá, mas em todas as partes, foram criados nos ensinamentos cristãos desde o nascimento.

A realidade é uma só. Muitos gays abandonam seus preceitos religiosos por não se sentirem aceitos por Deus, Igreja e a própria família. Alguns, para evitarem a sensação de dor e solidão, por serem julgados por algo que não conseguem mudar, se revestem de uma barreira intransponível, para afastarem o assunto “Religião e Deus” e, dessa forma evitam sofrer mais uma vez. Outros internalizam todo preconceito sofrido ao longo da vida, e desenvolvem uma culpabilização e aversão à própria sexualidade, gerando sentimentos autodepreciativos, perca do gosto pela vida e, em casos extremos, o suicídio.

Segundo os dados da pesquisa do Grupo E-jovem da primeira Escola GLBT no Brasil, com o tema “suicídio entre os jovens gays no país”, a taxa de adolescentes que se matam por causa do preconceito é de mais de mil por ano – uma média de três por dia. Além disso, 18% de todos os adolescentes gays já tentaram ao menos uma vez o suicídio. Os motivos se devem ao fato de que no momento de contar sua orientação sexual, mais de 50% deles receberam uma reação negativa da família. Destes, 66% sofrem violência verbal e até física. Mais de 50% dos gays afirmaram usar substâncias nocivas (cigarros, álcool e drogas) para amenizar esse tipo de mal-estar.

São trágicos índices que comprovam a dificuldade que enfrentamos em sermos aceitos pela sociedade. Um assunto, ainda hoje, mantido como um tabú e que gera muito sofrimento. Acusações vêm de toda parte e de todas as formas, atacando os gays por não serem cristãos, por serem promíscuos e levarem uma vida efêmera. Mas algum destes “santos” parou para refletir que isto pode ser um reflexo da própria condenação que eles se empenham em pregar com frieza em alta voz?
O gay, geralmente, busca encontrar no outro, o carinho e compreensão que necessita, mas depara-se com o conflito de não-aceitação, com a frustração de terem de se esconder, enquanto os heteros desfilam com pompas e circunstâncias. Além da exclusão e marginalização que passam em alguns ambientes, apenas por quererem ser quem são. Sofrem por não poderem assumir seus companheiros e seus sentimentos e, desta forma, como uma tentativa de fuga e desespero, se revoltam contra Deus e o mundo. E ainda por cima, são tachados como rebeldes. É um absurdo!

Outro ponto que a sociedade em geral, e principalmente, a religiosa vem colocando em evidência é a expressão: “Deus não ama o pecado, mas ama o pecador” (Salmos 5:5; 11:5 / Romanos 5:8). Como se a homossexualidade fosse o próprio exemplo do pecado e, portanto, o homossexual devesse se submeter à conversão e “cura”.

Entretanto, sabe-se que as “terapias de conversão” são verdadeiras lavagens cerebrais que induzem as pessoas a negar sua sexualidade. O que se explora é o sofrimento causado pela discriminação, e nem sempre os gays querem deixar de ser quem são, apenas, livrar-se do preconceito. Para comprovação disto tem-se que a partir de 11 de Dezembro de 1998 a diretoria da American Psychiatric Association aprovou por unanimidade uma declaração oficial de que as tentativas de “curar” a homossexualidade representam um perigo à saúde psicológica, enquanto que a homossexualidade em si, não.

Diante disso, meu dever como escritor é de gritar ao mundo para todos os que tenham ouvido, que ouçam! Não é a orientação sexual de uma pessoa que define o seu caráter. Conheço homossexuais que se distinguem pela inteligência apurada, pela cultura aprimorada, pela educação exemplar, pela fraternidade cristã e, principalmente, pelo caráter reto. Conheço, também, heterossexuais que mais parece um fosso vazio e sombrio. Com instinto mau, sentem prazer em humilhar o próximo através de seu ar de superioridade, sem compaixão pelo seu semelhante. Como podem se achar superiores aos homossexuais baseando-se em suas interpretações tendenciosas da Bíblia?

Às vezes se julga pessoas preciosas pela orientação sexual, sem ao menos tentar compreender o que sentem e como administram seus afetos e impulsos sexuais. O correto seria que as pessoas ao invés de dizerem como a pessoa gay devesse viver o olhassem como Jesus o faria, mesmo porque ele próprio disse: “Não julgue os outros para vocês não serem julgados por Deus” (Mateus 7: 2). Somente a partir disto, os cristãos poderiam verdadeiramente compreender a Inclusão Espiritual que Jesus pregava e deixou como exemplo quando aqui viveu, e, somente assim, a Homossexualidade e a Religião entrariam em concílio.